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Não Quero Mais (A Culpa De Não Ter Notado)
Não Quero Mais (A Culpa De Não Ter Notado)
Arquétipos da alma

Não queria ficar para trás
Perder o fio ao teu mundo
Se aconteceu já perder o lugar
Foi por um sono profundo
Sentir os teus braços a cair
Foi como fechar os olhos
E agora estás pronta para partir
Deixa-me entrar no teu sonho
Não quero voltar
Sei que não estou ilibado
Não há dor maior
Que a culpa de não ter notado
Não quero
Não quero mais
Não quero
Eu não queria acreditar
Fiz conta de não saber
O final já estava a chegar
Passou por mim a correr
Há sempre a esperança que faz sonhar
Mas há sempre alguém a morrer
Há sempre muros a desabar
Mas nunca há ninguém a ver
Não quero voltar
Sei que não estou ilibado
Não há dor maior
Que a culpa de não ter notado

Ricardo

A Leonor passava por nós e nós bem a víamos. O seu riso era como um trovejar de que não se tem medo. E lá íamos nós iludidos e atordoados pelo seu ribombar. Não dei conta que a tormenta era violenta e que apenas estaria ofuscado pelo brilho dos relâmpagos. Não dei conta que a chuva já caía grossa de todas a vezes que os seus olhos se inundavam. Um dia a Leonor desapareceu. Quis desaparecer. Esperou em coma até ao dia dos seus anos para que o final fosse mais trágico e nos pudesse dizer mais coisas ainda sobre o que ficou por dizer. Ficou tanto por dizer. Porque é que não me disseste? Se calhar não poderia fazer nada, mas sabes que a esperança de minimizar a culpa é sempre um alento para os que cá ficam. O teu riso permanece mais do que a memória de outras coisas. Acho que era isso que querias, quando não me autorizaste a ver-te chorar.


Mário

A génese deste tema foi-me transmitida, num verão da minha adolescência, por um rapaz que conheci uns dias antes do seu desaparecimento durante as férias. Felizmente não há culpa.