Vagueiam sozinhos na escuridão
Cirandam perdidos num turbilhão
Fazem amor sem saber o que é amar
Fingem sorrisos para quem estiver a olhar
É o fim do mundo
Já ouço dizer
É o fim do mundo
Só pensam em ganhar
Mas todos vão perder
Sentem a dor do prazer já frio
Aquecem a alma num arrepio
Chamam pela morte que tarda a chegar
Vestem o preto que o céu lhes deu para velar
É o fim do mundo
Já ouço dizer
É o fim do mundo
Só pensam em ganhar
Mas todos vão perder
É o fim do mundo
Também vais morrer
É o fim do mundo
Não tens onde agarrar
Não tens por quem sofrer
RICARDO
Este tema foi escrito quando calcorreei caminhos de gente perdida, que viviam no Fim do Mundo e o anunciavam aos caminhantes. Gente que tinha deixado de ser gente, mas que sobrevivia entre a culpa e o vício. Que acordavam mortos para mais uns dias de ar sufocado. Lembro-me com um arrepio de ouvir o riso das crianças ao longe. Cortante como um cutelo no matador. Lembro-me que o comboio passava por lá sem parar, e que à janela os passageiros mordiam o lábio, uns percorridos pelo medo interior, outros apenas ávidos de morte. Eles continuavam perdidos, dentes podres, a procurar abrigo entre os arbustos. Acho que nem me viam passar. Perante o fim do Mundo nada se pode fazer e eu acomodei-me ao conformismo. Estava igual a eles, dentes limpos.
MÁRIO
A força de cavalgar por notas menores e entre intervalos dissonantes é uma obrigatoriedade quando, anunciados por feedbacks, chegamos ao fim do mundo. O fim do mundo será certamente uma dissonância no ténue equilíbrio da vida.